Mais uma vez, após uma primeira e superficial leitura, Borges nos passa a falsa impressão de que O Fim poderia ser mais uma narrativa sem grandes mecanismos a serem elucidados. Uma história comum, talvez narrando somente o desfecho de um esperado duelo. No entanto, ao analisarmos com mais atenção, em cada elemento do conto de Borges, surgem diversos outros elementos ocultos sob a própria história. Creio que com esta análise não irei identificar sua totalidade, e mesmo que conseguisse, talvez não os fizesse corretamente.
O Fim é a história sobre dois homens que após sete anos se reencontram em um armazém, na campanha argentina, para um duelo definitivo. O dono do armazém, de nome Recabarren, é um homem inválido que, de seu quarto, acompanha o encontro do negro violeiro, que ali chegara há muito tempo e fixara-se “como que à espera de algo”, e de um gaúcho, que vindo de longe, ali entrara a sua procura. Ao travarem o diálogo dentro do armazém, desvenda-se que o gaúcho matara o irmão do negro em uma briga, sete anos antes, e que agora cabia a ele vingá-lo em uma luta com seu algoz. Depois de um combate de facas em punho e poncho ao braço, ao velho estilo dos duelos do Sul, o negro acaba por matar o gaúcho e recobrar a honra de seu irmão.
No momento em que os dois homens saem à planície, Borges declara que o gaúcho trata-se de Martín Fierro. Com essa declaração, quase ao final da história, Borges muda toda a percepção sobre o conto. O personagem mítico muda todo o entendimento sobre a narrativa, tornando alguns elementos mais perceptíveis.
Creio que para ter-se a devida compreensão do texto de Borges, é necessário que também seja feita uma leitura atenta de El Gaucho Martín Fierro, de José Hernández. O poema gauchesco de Hernández, narra a saga de Martín Fierro, um gaúcho morador do pampa argentino, retirado à força de seu rancho, abandonando mulher e dois filhos, para unir-se às colunas militares que vigiavam as fronteiras do país. Depois de passar por severas humilhações e trabalhos quase forçados nas fileiras do exército, Martín Fierro deserda e retorna a seu rancho, não encontrando nada além de uma tapera, sem vestígios de sua família. A partir de então, tomado pelo desgosto, passa a varrer o campo sem paradeiro certo, transformando-se em um homem que beira o bárbaro, sendo autor de diversos atos de crueldade. Em uma das passagens, Fierro, metido em um baile, desafia um negro para um duelo, depois de um curto flerte com a mulher que o acompanha, acabando por matá-lo.
O conto de Borges está intimamente relacionado com o poema de Hernández, e em ambos encontra-se elementos que os associam. El Gaucho Martín Fierro inicia-se com um cancioneiro (neste caso, o próprio Martín Fierro) tocando violão e cantando toda sua história em forma de milonga.
Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela
Em O Fim, o negro que espera Martín Fierro para o duelo também toca violão, e são os seus acordes que acordam Recabarren, o dono do armazém. E é a partir desse despertar aos sons de milonga (suponho que seja uma milonga) que Recabarren acaba percebendo a presença do negro e, por conseqüência, a chegada de Fierro ao armazém para o encontro com ele.
Recabarren, deitado, entreabriu os olhos e viu o oblíquo forro de junco. Do outro quarto, chegava-lhe um rasqueado de guitarra, uma espécie de paupérrimo labirinto que se enredava e desatava infinitamente...
Dessa forma, a história de Hernández une-se à de Borges por um fio de continuidade. Talvez as duas histórias estejam amarradas pelos acordes de milonga que relatam a vida de Martín Fierro e o desafio do negro de Borges.
Recabarren é o personagem mais misterioso do conto. Parece ser dele a consciência do todo. É ele que ouve o ruído do violão do negro e igualmente vê Martín Fierro aproximar-se do armazém. No entanto, não o vê descer do cavalo e muito menos é testemunha do diálogo travado entre ambos no interior de sua venda. O narrador, em terceira pessoa é que anuncia Martín Fierro como sendo o homem que se atira sobre o violeiro, quase no final do conto. Até então, o que Recabarren efetivamente testemunhara foi a presença do negro, ao ouvir seu violão, e a chegada de um homem sobre a planície.
A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho. Um ponto moveu-se no horizonte até ser um cavalheiro que vinha, ou parecia vir, para casa. Recabarren viu o chapéu de abas largas, o longo poncho escuro, o cavalo mouro, mas não o rosto do homem, que veio aproximando-se a trote lento. A umas duzentas varas de distância, virou.
O homem que vinha, de fato, era um cavaleiro, um gaúcho típico pela descrição do narrador e pela percepção de Recabarren. Um gaúcho que lembrava a imagem mítica do verdadeiro gaúcho, colocado em um poncho escuro, usando chapéu de abas largas, sobre um cavalo altivo, somente com o pasto e o céu a serem sua casa. Um gaúcho. Um Martín Fierro.
Antes disso, Recabarren toca uma sineta de bronze em dois momentos: na primeira, chama o menino, que provavelmente é seu filho, para perguntar-lhe se há alguém no armazém. Depois, brinca com ela por alguns instantes “como que exercitando um poder”. Após essa segunda, Recabarren vê o gaúcho sobre a planície. Sendo o sino um símbolo de anunciação de momentos decisivos, pode-se entender que Recabarren tenha imaginado alguém a chegar sobre um cavalo em direção ao seu armazém. É um homem invalidado por um derrame, sem movimentos e sem fala. Seu pensamento é a única ferramenta que lhe sobrou para fugir da realidade em que se vê submetido.
Habituado a viver no presente, como os animais, agora olhava o céu e pensava que o halo vermelho da lua era sinal de chuva.
Outra possibilidade, e essa faz-se mais interessante, é que Recabarren ao notar o modelo típico do gaúcho sobre a planície, veja, através de sua imaginação, o próprio Martín Fierro a chegar em sua venda, buscando ali um encontro com o irmão do homem que ele próprio matara anos atrás. “A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho”. O homem desaparece, antes de chegar ao armazém, e isso é tudo o que Recabarren vê, além de ouvir sua voz, o ruído de suas botas pisando ao chão e o som do apear do cavalo. A partir disso, quem testemunha os fatos é o narrador, que pode ser aqui a consciência de Recabarren a trabalhar, a imaginar um final diferente para o gaúcho de José Hernández, encontrando-se com o irmão do homem que assassinara.
O diálogo magnífico escrito por Borges pode retratar a visão de Recabarren para os fatos, contextualizando a briga entre dois homens (quaisquer) dentro da história de Hernández. Um outro desfecho. Dessa forma, Borges estaria utilizando o negro de seu armazém como um ponto de referência ao negro assassinado no passado, unindo definitivamente as duas histórias.
Após, quando o texto recupera a visão de Recabarren para os fatos, o duelo já está em andamento. E de seu catre ele consegue ver o negro penetrando o ventre de Fierro com uma punhalada, deixando o gaúcho deitado no pasto com o corpo ensanguentado. O narrador de Borges, ainda comenta que
Cumprida a tarefa de justiceiro, agora era ninguém. Ou melhor, era o outro: não tinha destino sobre a terra e matara um homem.
A justiça para uma grande injustiça havia sido feita pelo personagem de Recabarren. O negro assassinara Fierro da mesma forma como ele assissinara o outro negro, o da obra de Hernández. A sua história era a continuidade - que ele acreditava faltar - para o poema do gaúcho Martín Fierro. O final da história. O fim. E por baixo de tudo isso, o negro agora, por derramar “o sangue do homem”, tornara-se um igual e talvez tivesse o mesmo destino de Fierro, de varar os campos sem rumo, tendo matado alguém. É a idéia de continuidade que fica ao final, como se homens como aqueles nunca tivessem o seu fim.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
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