terça-feira, 13 de setembro de 2011
Gauchão de Literatura 2011
Na sexta-feira passada (08/09), foi publicada a crítica que fiz para o Gauchão de Literatura 2011, sobre as obras Unhas (de Paulo Wainberg) e Tudo o que Fizemos (de Carlos André Moreira). Acesse o site do Gauchão para ler as considerações sobre cada obra e conferir o vencedor do confronto.
domingo, 24 de julho de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
Concursos e Prêmio
Atualizações: meu conto "Homens", escrito no ano passado, ficou classificado entre os 20 contos premiados no II Prêmio Literário Cidade Poesia, em Bragança Paulista (SP). O resultado pode ser conferido aqui.
Na semana passada, fui informado que "Homens" foi premiado em primeiro lugar no Prêmio Cidade de Gravatal, em Gravatal (SC). O resultado deve ser publicado oficialmente nos próximos dias.
Na semana passada, fui informado que "Homens" foi premiado em primeiro lugar no Prêmio Cidade de Gravatal, em Gravatal (SC). O resultado deve ser publicado oficialmente nos próximos dias.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Um breve ensaio sobre O Fim, de Jorge Luis Borges
Mais uma vez, após uma primeira e superficial leitura, Borges nos passa a falsa impressão de que O Fim poderia ser mais uma narrativa sem grandes mecanismos a serem elucidados. Uma história comum, talvez narrando somente o desfecho de um esperado duelo. No entanto, ao analisarmos com mais atenção, em cada elemento do conto de Borges, surgem diversos outros elementos ocultos sob a própria história. Creio que com esta análise não irei identificar sua totalidade, e mesmo que conseguisse, talvez não os fizesse corretamente.
O Fim é a história sobre dois homens que após sete anos se reencontram em um armazém, na campanha argentina, para um duelo definitivo. O dono do armazém, de nome Recabarren, é um homem inválido que, de seu quarto, acompanha o encontro do negro violeiro, que ali chegara há muito tempo e fixara-se “como que à espera de algo”, e de um gaúcho, que vindo de longe, ali entrara a sua procura. Ao travarem o diálogo dentro do armazém, desvenda-se que o gaúcho matara o irmão do negro em uma briga, sete anos antes, e que agora cabia a ele vingá-lo em uma luta com seu algoz. Depois de um combate de facas em punho e poncho ao braço, ao velho estilo dos duelos do Sul, o negro acaba por matar o gaúcho e recobrar a honra de seu irmão.
No momento em que os dois homens saem à planície, Borges declara que o gaúcho trata-se de Martín Fierro. Com essa declaração, quase ao final da história, Borges muda toda a percepção sobre o conto. O personagem mítico muda todo o entendimento sobre a narrativa, tornando alguns elementos mais perceptíveis.
Creio que para ter-se a devida compreensão do texto de Borges, é necessário que também seja feita uma leitura atenta de El Gaucho Martín Fierro, de José Hernández. O poema gauchesco de Hernández, narra a saga de Martín Fierro, um gaúcho morador do pampa argentino, retirado à força de seu rancho, abandonando mulher e dois filhos, para unir-se às colunas militares que vigiavam as fronteiras do país. Depois de passar por severas humilhações e trabalhos quase forçados nas fileiras do exército, Martín Fierro deserda e retorna a seu rancho, não encontrando nada além de uma tapera, sem vestígios de sua família. A partir de então, tomado pelo desgosto, passa a varrer o campo sem paradeiro certo, transformando-se em um homem que beira o bárbaro, sendo autor de diversos atos de crueldade. Em uma das passagens, Fierro, metido em um baile, desafia um negro para um duelo, depois de um curto flerte com a mulher que o acompanha, acabando por matá-lo.
O conto de Borges está intimamente relacionado com o poema de Hernández, e em ambos encontra-se elementos que os associam. El Gaucho Martín Fierro inicia-se com um cancioneiro (neste caso, o próprio Martín Fierro) tocando violão e cantando toda sua história em forma de milonga.
Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela
Em O Fim, o negro que espera Martín Fierro para o duelo também toca violão, e são os seus acordes que acordam Recabarren, o dono do armazém. E é a partir desse despertar aos sons de milonga (suponho que seja uma milonga) que Recabarren acaba percebendo a presença do negro e, por conseqüência, a chegada de Fierro ao armazém para o encontro com ele.
Recabarren, deitado, entreabriu os olhos e viu o oblíquo forro de junco. Do outro quarto, chegava-lhe um rasqueado de guitarra, uma espécie de paupérrimo labirinto que se enredava e desatava infinitamente...
Dessa forma, a história de Hernández une-se à de Borges por um fio de continuidade. Talvez as duas histórias estejam amarradas pelos acordes de milonga que relatam a vida de Martín Fierro e o desafio do negro de Borges.
Recabarren é o personagem mais misterioso do conto. Parece ser dele a consciência do todo. É ele que ouve o ruído do violão do negro e igualmente vê Martín Fierro aproximar-se do armazém. No entanto, não o vê descer do cavalo e muito menos é testemunha do diálogo travado entre ambos no interior de sua venda. O narrador, em terceira pessoa é que anuncia Martín Fierro como sendo o homem que se atira sobre o violeiro, quase no final do conto. Até então, o que Recabarren efetivamente testemunhara foi a presença do negro, ao ouvir seu violão, e a chegada de um homem sobre a planície.
A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho. Um ponto moveu-se no horizonte até ser um cavalheiro que vinha, ou parecia vir, para casa. Recabarren viu o chapéu de abas largas, o longo poncho escuro, o cavalo mouro, mas não o rosto do homem, que veio aproximando-se a trote lento. A umas duzentas varas de distância, virou.
O homem que vinha, de fato, era um cavaleiro, um gaúcho típico pela descrição do narrador e pela percepção de Recabarren. Um gaúcho que lembrava a imagem mítica do verdadeiro gaúcho, colocado em um poncho escuro, usando chapéu de abas largas, sobre um cavalo altivo, somente com o pasto e o céu a serem sua casa. Um gaúcho. Um Martín Fierro.
Antes disso, Recabarren toca uma sineta de bronze em dois momentos: na primeira, chama o menino, que provavelmente é seu filho, para perguntar-lhe se há alguém no armazém. Depois, brinca com ela por alguns instantes “como que exercitando um poder”. Após essa segunda, Recabarren vê o gaúcho sobre a planície. Sendo o sino um símbolo de anunciação de momentos decisivos, pode-se entender que Recabarren tenha imaginado alguém a chegar sobre um cavalo em direção ao seu armazém. É um homem invalidado por um derrame, sem movimentos e sem fala. Seu pensamento é a única ferramenta que lhe sobrou para fugir da realidade em que se vê submetido.
Habituado a viver no presente, como os animais, agora olhava o céu e pensava que o halo vermelho da lua era sinal de chuva.
Outra possibilidade, e essa faz-se mais interessante, é que Recabarren ao notar o modelo típico do gaúcho sobre a planície, veja, através de sua imaginação, o próprio Martín Fierro a chegar em sua venda, buscando ali um encontro com o irmão do homem que ele próprio matara anos atrás. “A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho”. O homem desaparece, antes de chegar ao armazém, e isso é tudo o que Recabarren vê, além de ouvir sua voz, o ruído de suas botas pisando ao chão e o som do apear do cavalo. A partir disso, quem testemunha os fatos é o narrador, que pode ser aqui a consciência de Recabarren a trabalhar, a imaginar um final diferente para o gaúcho de José Hernández, encontrando-se com o irmão do homem que assassinara.
O diálogo magnífico escrito por Borges pode retratar a visão de Recabarren para os fatos, contextualizando a briga entre dois homens (quaisquer) dentro da história de Hernández. Um outro desfecho. Dessa forma, Borges estaria utilizando o negro de seu armazém como um ponto de referência ao negro assassinado no passado, unindo definitivamente as duas histórias.
Após, quando o texto recupera a visão de Recabarren para os fatos, o duelo já está em andamento. E de seu catre ele consegue ver o negro penetrando o ventre de Fierro com uma punhalada, deixando o gaúcho deitado no pasto com o corpo ensanguentado. O narrador de Borges, ainda comenta que
Cumprida a tarefa de justiceiro, agora era ninguém. Ou melhor, era o outro: não tinha destino sobre a terra e matara um homem.
A justiça para uma grande injustiça havia sido feita pelo personagem de Recabarren. O negro assassinara Fierro da mesma forma como ele assissinara o outro negro, o da obra de Hernández. A sua história era a continuidade - que ele acreditava faltar - para o poema do gaúcho Martín Fierro. O final da história. O fim. E por baixo de tudo isso, o negro agora, por derramar “o sangue do homem”, tornara-se um igual e talvez tivesse o mesmo destino de Fierro, de varar os campos sem rumo, tendo matado alguém. É a idéia de continuidade que fica ao final, como se homens como aqueles nunca tivessem o seu fim.
O Fim é a história sobre dois homens que após sete anos se reencontram em um armazém, na campanha argentina, para um duelo definitivo. O dono do armazém, de nome Recabarren, é um homem inválido que, de seu quarto, acompanha o encontro do negro violeiro, que ali chegara há muito tempo e fixara-se “como que à espera de algo”, e de um gaúcho, que vindo de longe, ali entrara a sua procura. Ao travarem o diálogo dentro do armazém, desvenda-se que o gaúcho matara o irmão do negro em uma briga, sete anos antes, e que agora cabia a ele vingá-lo em uma luta com seu algoz. Depois de um combate de facas em punho e poncho ao braço, ao velho estilo dos duelos do Sul, o negro acaba por matar o gaúcho e recobrar a honra de seu irmão.
No momento em que os dois homens saem à planície, Borges declara que o gaúcho trata-se de Martín Fierro. Com essa declaração, quase ao final da história, Borges muda toda a percepção sobre o conto. O personagem mítico muda todo o entendimento sobre a narrativa, tornando alguns elementos mais perceptíveis.
Creio que para ter-se a devida compreensão do texto de Borges, é necessário que também seja feita uma leitura atenta de El Gaucho Martín Fierro, de José Hernández. O poema gauchesco de Hernández, narra a saga de Martín Fierro, um gaúcho morador do pampa argentino, retirado à força de seu rancho, abandonando mulher e dois filhos, para unir-se às colunas militares que vigiavam as fronteiras do país. Depois de passar por severas humilhações e trabalhos quase forçados nas fileiras do exército, Martín Fierro deserda e retorna a seu rancho, não encontrando nada além de uma tapera, sem vestígios de sua família. A partir de então, tomado pelo desgosto, passa a varrer o campo sem paradeiro certo, transformando-se em um homem que beira o bárbaro, sendo autor de diversos atos de crueldade. Em uma das passagens, Fierro, metido em um baile, desafia um negro para um duelo, depois de um curto flerte com a mulher que o acompanha, acabando por matá-lo.
O conto de Borges está intimamente relacionado com o poema de Hernández, e em ambos encontra-se elementos que os associam. El Gaucho Martín Fierro inicia-se com um cancioneiro (neste caso, o próprio Martín Fierro) tocando violão e cantando toda sua história em forma de milonga.
Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela
Em O Fim, o negro que espera Martín Fierro para o duelo também toca violão, e são os seus acordes que acordam Recabarren, o dono do armazém. E é a partir desse despertar aos sons de milonga (suponho que seja uma milonga) que Recabarren acaba percebendo a presença do negro e, por conseqüência, a chegada de Fierro ao armazém para o encontro com ele.
Recabarren, deitado, entreabriu os olhos e viu o oblíquo forro de junco. Do outro quarto, chegava-lhe um rasqueado de guitarra, uma espécie de paupérrimo labirinto que se enredava e desatava infinitamente...
Dessa forma, a história de Hernández une-se à de Borges por um fio de continuidade. Talvez as duas histórias estejam amarradas pelos acordes de milonga que relatam a vida de Martín Fierro e o desafio do negro de Borges.
Recabarren é o personagem mais misterioso do conto. Parece ser dele a consciência do todo. É ele que ouve o ruído do violão do negro e igualmente vê Martín Fierro aproximar-se do armazém. No entanto, não o vê descer do cavalo e muito menos é testemunha do diálogo travado entre ambos no interior de sua venda. O narrador, em terceira pessoa é que anuncia Martín Fierro como sendo o homem que se atira sobre o violeiro, quase no final do conto. Até então, o que Recabarren efetivamente testemunhara foi a presença do negro, ao ouvir seu violão, e a chegada de um homem sobre a planície.
A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho. Um ponto moveu-se no horizonte até ser um cavalheiro que vinha, ou parecia vir, para casa. Recabarren viu o chapéu de abas largas, o longo poncho escuro, o cavalo mouro, mas não o rosto do homem, que veio aproximando-se a trote lento. A umas duzentas varas de distância, virou.
O homem que vinha, de fato, era um cavaleiro, um gaúcho típico pela descrição do narrador e pela percepção de Recabarren. Um gaúcho que lembrava a imagem mítica do verdadeiro gaúcho, colocado em um poncho escuro, usando chapéu de abas largas, sobre um cavalo altivo, somente com o pasto e o céu a serem sua casa. Um gaúcho. Um Martín Fierro.
Antes disso, Recabarren toca uma sineta de bronze em dois momentos: na primeira, chama o menino, que provavelmente é seu filho, para perguntar-lhe se há alguém no armazém. Depois, brinca com ela por alguns instantes “como que exercitando um poder”. Após essa segunda, Recabarren vê o gaúcho sobre a planície. Sendo o sino um símbolo de anunciação de momentos decisivos, pode-se entender que Recabarren tenha imaginado alguém a chegar sobre um cavalo em direção ao seu armazém. É um homem invalidado por um derrame, sem movimentos e sem fala. Seu pensamento é a única ferramenta que lhe sobrou para fugir da realidade em que se vê submetido.
Habituado a viver no presente, como os animais, agora olhava o céu e pensava que o halo vermelho da lua era sinal de chuva.
Outra possibilidade, e essa faz-se mais interessante, é que Recabarren ao notar o modelo típico do gaúcho sobre a planície, veja, através de sua imaginação, o próprio Martín Fierro a chegar em sua venda, buscando ali um encontro com o irmão do homem que ele próprio matara anos atrás. “A planície sobre o último sol, era quase abstrata, como vista num sonho”. O homem desaparece, antes de chegar ao armazém, e isso é tudo o que Recabarren vê, além de ouvir sua voz, o ruído de suas botas pisando ao chão e o som do apear do cavalo. A partir disso, quem testemunha os fatos é o narrador, que pode ser aqui a consciência de Recabarren a trabalhar, a imaginar um final diferente para o gaúcho de José Hernández, encontrando-se com o irmão do homem que assassinara.
O diálogo magnífico escrito por Borges pode retratar a visão de Recabarren para os fatos, contextualizando a briga entre dois homens (quaisquer) dentro da história de Hernández. Um outro desfecho. Dessa forma, Borges estaria utilizando o negro de seu armazém como um ponto de referência ao negro assassinado no passado, unindo definitivamente as duas histórias.
Após, quando o texto recupera a visão de Recabarren para os fatos, o duelo já está em andamento. E de seu catre ele consegue ver o negro penetrando o ventre de Fierro com uma punhalada, deixando o gaúcho deitado no pasto com o corpo ensanguentado. O narrador de Borges, ainda comenta que
Cumprida a tarefa de justiceiro, agora era ninguém. Ou melhor, era o outro: não tinha destino sobre a terra e matara um homem.
A justiça para uma grande injustiça havia sido feita pelo personagem de Recabarren. O negro assassinara Fierro da mesma forma como ele assissinara o outro negro, o da obra de Hernández. A sua história era a continuidade - que ele acreditava faltar - para o poema do gaúcho Martín Fierro. O final da história. O fim. E por baixo de tudo isso, o negro agora, por derramar “o sangue do homem”, tornara-se um igual e talvez tivesse o mesmo destino de Fierro, de varar os campos sem rumo, tendo matado alguém. É a idéia de continuidade que fica ao final, como se homens como aqueles nunca tivessem o seu fim.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Gauchão de Literatura
É isso mesmo. Um Campeonato Gaúcho de Literatura. Jogo duro, no barro, no frio. Palavras cruzando a grande área, chegada ríspida, retoço no meio-de-campo. É a brava literatura gaúcha tendo espaço, sendo ouvida por todos que queiram conhecer os bons autores rio-grandenses.
Neste campeonato, que é mais que um campeonato, é um Gauchão, livros de contos da literatura gaúcha se enfrentam. Há um juiz, que acompanha cada lance, e elabora uma crítica afinada de cada obra, elegendo o vencedor do duelo. E assim vamos, percorrendo as 27 obras que participam do certame. Ao final, mais que um campeão: teremos 27 grandes obras de nossa literatura lidas por nossos críticos - ou juízes, em nosso campeonato - e comentadas, dissecadas, expostas ao grande público. Finalmente teremos um espaço sério e com críticos de alto nível falando sobre bons livros. Mais: nossos livros, publicados por gente de todo o Rio Grande.
Acompanhe o Gauchão de Literatura - mais um projeto que envolve o incansável Rodrigo Rosp: http://gauchaodeliteratura.com.br/. A primeira rodada teve o duelo entre Atalhos (Luis Dill) e Mar Quente (de Enio Roberto). Acesse o site para verificar o vencedor e o que ele fez para merecer a vitória.
No mais, boa sorte aos participantes. No final das contas, ademais da taça dedicada ao campeão, todos ganham. O autor, o leitor, a sociedade literária.
Esse é o Gauchão velho de guerra.
domingo, 14 de março de 2010
Sonhos
Encontrei com meu amigo Dimitre Lima em São Paulo, na semana passada. Dentre muitas coisas que conversamos, ele acabou me mostrando um projeto que está desenvolvendo: um banco de dados de sonhos. Não lembro como a ideia surgiu, nem se seria correto denominá-la assim ("banco de dados"), mas o fato é que sua coleção já possui mais de 1770 sonhos cadastrados, por gente dos mais diversos lugares possíveis. A ideia dele é de, no futuro, criar uma publicação que disponibilize, de alguma forma, os sonhos ali registrados por pessoas que acessam o portal voluntariamente.
Impressionante o resultado da compilação dessas confusões mentais que enfrentamos durante o sono. No site, pode-se ler os sonhos cadastrados, admirar sua diversidade e surpreender-se com a capacidade de criatividade contida em nossa mente. Em cada sonho, pode-se dar uma olhada em uma estatística das palavras que mais são citadas em sua descrição. O resultado é impressionante. Um prato cheio para os estudantes da psiquê humana e escritores. Cada sonho daqueles pode ser contado de inúmeras formas diferentes. Alguns chegam a chocar pela sua complexidade e pela capacidade de representação de uma realidade que ninguém sabe ao certo dizer se existe.
Um projeto excelente. Uma ideia fantástica, como milhares de outras vindas deste grande artista chamado Dimitre Lima. Vale a pena conferir sua Coleção de Sonhos e seu site pessoal, contendo diversas aplicações de arte digital.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Reflexões sobre As Veias Abertas da América Latina (Um)
Particularmente, decidi há algum tempo que leria Eduardo Galeano quando estivesse preparado para tanto. Pode parecer piegas e pedante uma afirmação como esta, quando se fala em ler um dos maiores escritores latino-americanos do século, que assina uma das obras críticas mais importantes de nosso tempo. No entanto, quando pela primeira vez tive em minhas mãos As Veias Abertas da América Latina, decidi não lê-lo, pois tinha a certeza que ainda me faltava maturidade e visão crítica suficiente para compreender a mensagem de Galeano. Enfim que, não muito tempo depois - já que meu processo de amadurecimento pessoal e de minha visão crítica é lento - nesta virada de ano sem grandes empolgações e quase nenhum projeto interessante a ser trabalhado, pela segunda vez As Veias Abertas da América Latina caem em minhas mãos. Não por acaso.
Em meio aos fogos e os brindes de um 2010 que chega recheado de dúvidas, fui abarcado pelo texto de Galeano, mergulhando nas entranhas de nossa América recém descoberta. Impressionou-me a lucidez de seu discurso e a clareza de duas ideias. Nada é novo, e tudo é novo. As imagens brotam das páginas, materializando o índio assassinado; o brilho das toneladas de ouro e prata retiradas de sítios riquíssimos, como Potosí, e embarcados nos navios dos piratas espanhóis; a burrice ibérica, servindo apenas como transportador da riqueza colonial aos seus dominadores europeus. Ler quarenta páginas deste enorme ensaio, é ter náuseas constantes. É alimentar o ódio e exercitar o perdão. É entender as engrenagens do mundo capitalista, que recém dava os primeiros passos. E estes passos iniciais, estas pegadas gigantes, eram custeadas pelo ouro e sangue latino-americano.
E não foram somente os índios colonizados que pagaram esta conta, nem o burro colonizador, que não soube tirar proveito da riqueza saqueada. O que Galeano, nas primeiras quarenta páginas deixa muito claro, com base em documentos e relatos históricos, é que todos nós, em pleno século XXI estamos ainda pagando esta fatura. E todos os dias ela é renovada, quando aplaudimos iniciativas humanitárias da pátria libertadora da América do Norte, do investimento massivo da salvadora indústria europeia em solo Americano, da mão amiga e forte de nossos amigos do FMI e do Banco Mundial. Gente fina. Gente nossa.
Não há nada de novo na obra de Galeano. Mas, como eu disse, tudo é novo. É a história contada pela terceira vez, só que de uma forma ainda mais contundente, ainda mais revoltante. Fomos tão estúpidos assim como foi estúpido o colonizador espanhol. Mas dentro das Veias de Galeano, corre ainda a essência de nossa estupidez contemporânea, onde tudo se compra dos velhos corsários europeus, onde insistimos em falar uma língua que não é nem o castelhano, nem o português. Batemos na tecla de deixar o capital na mão de poucos, e fazemos valer o slogam da Águia, pichado nos longos muros da América: acabe com a pobreza, mate um mendigo.
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