Em meio aos fogos e os brindes de um 2010 que chega recheado de dúvidas, fui abarcado pelo texto de Galeano, mergulhando nas entranhas de nossa América recém descoberta. Impressionou-me a lucidez de seu discurso e a clareza de duas ideias. Nada é novo, e tudo é novo. As imagens brotam das páginas, materializando o índio assassinado; o brilho das toneladas de ouro e prata retiradas de sítios riquíssimos, como Potosí, e embarcados nos navios dos piratas espanhóis; a burrice ibérica, servindo apenas como transportador da riqueza colonial aos seus dominadores europeus. Ler quarenta páginas deste enorme ensaio, é ter náuseas constantes. É alimentar o ódio e exercitar o perdão. É entender as engrenagens do mundo capitalista, que recém dava os primeiros passos. E estes passos iniciais, estas pegadas gigantes, eram custeadas pelo ouro e sangue latino-americano.
E não foram somente os índios colonizados que pagaram esta conta, nem o burro colonizador, que não soube tirar proveito da riqueza saqueada. O que Galeano, nas primeiras quarenta páginas deixa muito claro, com base em documentos e relatos históricos, é que todos nós, em pleno século XXI estamos ainda pagando esta fatura. E todos os dias ela é renovada, quando aplaudimos iniciativas humanitárias da pátria libertadora da América do Norte, do investimento massivo da salvadora indústria europeia em solo Americano, da mão amiga e forte de nossos amigos do FMI e do Banco Mundial. Gente fina. Gente nossa.
Não há nada de novo na obra de Galeano. Mas, como eu disse, tudo é novo. É a história contada pela terceira vez, só que de uma forma ainda mais contundente, ainda mais revoltante. Fomos tão estúpidos assim como foi estúpido o colonizador espanhol. Mas dentro das Veias de Galeano, corre ainda a essência de nossa estupidez contemporânea, onde tudo se compra dos velhos corsários europeus, onde insistimos em falar uma língua que não é nem o castelhano, nem o português. Batemos na tecla de deixar o capital na mão de poucos, e fazemos valer o slogam da Águia, pichado nos longos muros da América: acabe com a pobreza, mate um mendigo.

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