sábado, 2 de janeiro de 2010

Reflexões sobre As Veias Abertas da América Latina (Um)

Particularmente, decidi há algum tempo que leria Eduardo Galeano quando estivesse preparado para tanto. Pode parecer piegas e pedante uma afirmação como esta, quando se fala em ler um dos maiores escritores latino-americanos do século, que assina uma das obras críticas mais importantes de nosso tempo. No entanto, quando pela primeira vez tive em minhas mãos As Veias Abertas da América Latina, decidi não lê-lo, pois tinha a certeza que ainda me faltava maturidade e visão crítica suficiente para compreender a mensagem de Galeano. Enfim que, não muito tempo depois - já que meu processo de amadurecimento pessoal e de minha visão crítica é lento - nesta virada de ano sem grandes empolgações e quase nenhum projeto interessante a ser trabalhado, pela segunda vez As Veias Abertas da América Latina caem em minhas mãos. Não por acaso.

Em meio aos fogos e os brindes de um 2010 que chega recheado de dúvidas, fui abarcado pelo texto de Galeano, mergulhando nas entranhas de nossa América recém descoberta. Impressionou-me a lucidez de seu discurso e a clareza de duas ideias. Nada é novo, e tudo é novo. As imagens brotam das páginas, materializando o índio assassinado; o brilho das toneladas de ouro e prata retiradas de sítios riquíssimos, como Potosí, e embarcados nos navios dos piratas espanhóis; a burrice ibérica, servindo apenas como transportador da riqueza colonial aos seus dominadores europeus. Ler quarenta páginas deste enorme ensaio, é ter náuseas constantes. É alimentar o ódio e exercitar o perdão. É entender as engrenagens do mundo capitalista, que recém dava os primeiros passos. E estes passos iniciais, estas pegadas gigantes, eram custeadas pelo ouro e sangue latino-americano.

E não foram somente os índios colonizados que pagaram esta conta, nem o burro colonizador, que não soube tirar proveito da riqueza saqueada. O que Galeano, nas primeiras quarenta páginas deixa muito claro, com base em documentos e relatos históricos, é que todos nós, em pleno século XXI estamos ainda pagando esta fatura. E todos os dias ela é renovada, quando aplaudimos iniciativas humanitárias da pátria libertadora da América do Norte, do investimento massivo da salvadora indústria europeia em solo Americano, da mão amiga e forte de nossos amigos do FMI e do Banco Mundial. Gente fina. Gente nossa.

Não há nada de novo na obra de Galeano. Mas, como eu disse, tudo é novo. É a história contada pela terceira vez, só que de uma forma ainda mais contundente, ainda mais revoltante. Fomos tão estúpidos assim como foi estúpido o colonizador espanhol. Mas dentro das Veias de Galeano, corre ainda a essência de nossa estupidez contemporânea, onde tudo se compra dos velhos corsários europeus, onde insistimos em falar uma língua que não é nem o castelhano, nem o português. Batemos na tecla de deixar o capital na mão de poucos, e fazemos valer o slogam da Águia, pichado nos longos muros da América: acabe com a pobreza, mate um mendigo.

0 comentários:

Postar um comentário